Neilton Araujo de Oliveira[1]

Aproxima-se o dia das eleições municipais brasileiras, no primeiro domingo de outubro (07/10/12) e, embora a efervescência do período eleitoral ainda não tenha se manifestado – faltando apenas cerca de sessenta dias para o pleito que elegerá prefeitos, vice-prefeitos e vereadores em 5.565 municípios do país –, qualquer tema que se pretenda discutir, ou analisar, nos dois próximos meses, precisará ter em conta o ‘clima’, a disputa e, principalmente, os interesses eleitorais. E isso não será possível sem considerar, também, o contexto mundial (e brasileiro) da crise econômica atual.

Lembrando que Crescimento e Desenvolvimento são coisas diferentes (Oliveira, 2012a), e que muitas vezes são apresentados como somente crescimento econômico, os noticiários diariamente destacam a evolução da crise econômica atualmente em curso em todas as partes do mundo (muito especialmente na Europa), afetando o “crescimento” e o “desenvolvimento” naqueles países, mas também em todos os demais países do planeta. Ressaltam fortemente suas possíveis causas, as principais intercorrências e, muito enfaticamente, seus efeitos devastadores nas economias nacionais, regionais e mundiais, afetando os mais diversos campos. Porém, particularmente “carregam na tinta” quando se referem e justificam os prejuízos sobre direitos sociais, como saúde, educação, moradia, proteção ambiental, salários e outros direitos dos trabalhadores.

Ainda que sem muita “pressão”, e não tão visível para a maioria da sociedade, no Brasil também se pode sentir os efeitos e repercussões da crise global, afetando o crescimento da economia, a maioria dos negócios, a intensidade de consumo e a qualidade de vida das pessoas, ameaçando e sacrificando principalmente os mais pobres, ou seja, comprometendo o nosso desenvolvimento (Oliveira, 2012b). As repercussões são muitas, e nos mais variados setores, mas em alguns deles elas são mais severas e, por isso mesmo, mais notadas.

Um importante determinante social da saúde (CMDSS, 2011), a urbanização, por exemplo, segundo estudo publicado pela Fundação Rockefeller (2012), é uma das forças mais poderosas e visíveis da terra, irreversível e antropogênica vem dirigindo transformações de paisagens e ecossistemas, produzindo muitos e graves problemas ambientais globais que incidem direta e pesadamente na vida das populações. “…Cidades em todo o mundo em desenvolvimento estão se esforçando para atender à demanda crescente por moradia segura e respeitável, transporte, água, tratamento de resíduos e outras infra-estruturas e serviços necessários para fomentar ambientes saudáveis e produtivos, adequados, portanto, para viver e trabalhar. Como a compreensão cresce em torno de como as mudanças climáticas afetarão áreas urbanas, “resistência às alterações climáticas” e “triagem dos riscos climáticos” estão cada vez mais se tornando parte do arsenal de doadores e governos, refletindo um desejo de investimentos de infra-estrutura a ser protegido contra choques relacionados com o clima…” (Rockefeller, 2012).

Os efeitos sobre todas estas dimensões, ou componentes, da urbanização, refletem fundamentalmente nas condições de saúde da população, sobrecarregando as políticas e sistemas de saúde, e a economia, e as pessoas adoentadas gerarão num círculo vicioso mais dificuldades e sobrecarga para a economia.

Desta forma, nas eleições brasileiras deste ano, embora se refiram somente a cargos da esfera municipal, a discussão, o debate e a proposição de ações não poderão ser relativas apenas aos temas locais: decididamente, os candidatos e partidos que relacionarem seus projetos e propostas a questões regionais, nacionais e globais, e que motivarem mais o posicionamento crítico e participativo dos eleitores, estarão mais em sintonia com os anseios da população e, portanto, com maior chance de serem bem sucedidos.

Referências:

Oliveira NA. Proteção Sanitária, Integralidade da Saúde e Desenvolvimento. Acesso em 29/07/12 e disponível em: http://http://blogs.bvsalud.org/ds/2012/04/27/protecao-sanitaria-integralidade-da-saude-e-desenvolvimento/

Oliveira NA. SAÚDE, DESENVOLVIMENTO E OUTROS DESAFIOS URGENTES DO BRASIL. Acesso em 29/07/12 e disponível em: http://blogs.bvsalud.org/ds/2012/03/01/saude-desenvolvimento-e-outros-desafios-urgentes-do-brasil/

Conferência Mundial de Determinantes Sociais da Saúde. Acesso em 29/07/2012 e disponível em: http://cmdss2011.org/site/
Rockefeller Foundation. Addressing Grand Challenges for Global Sustainability: Monitoring, Forecasting, and Governance of Urban Systems. Acesso em 29/07/2012 e disponível em: http://www.rockefellerfoundation.org/news/publications/addressing-grand-challenges-global

[1]Médico, Mestre em Saúde Coletiva, Doutor em Ciências, Professor da UFT-Universidade Federal do Tocantins e Diretor Adjunto da ANVISA – é um dos articuladores da REDE DS e Editor do BLOG DIREITO SANITÁRIO: Saúde e Cidadania.