Neilton Araujo de Oliveira[1]

Não resta dúvida quanto à relevância do tema saúde e ao fato de que a mídia dá grande repercussão aos diferentes acontecimentos da área, seja notícias boas ou não, e principalmente quando essa notícia pode configurar algo escandaloso. Contudo, em geral as dimensões da saúde como ‘direito’ e como um ‘bem comum’ normalmente sofre a supremacia da dimensão da saúde ‘mercadoria’, seja no plano individual ou no plano coletivo.

Não é por acaso, então, que a posse do novo Ministro da Saúde – um militante declarado do SUS e com histórica e forte identidade municipalista –, mesmo compondo um quadro importante de avaliação e renovação de compromissos governamentais e explicitação de novas prioridades na política de saúde e na implementação do SUS, compartilhado por centenas de lideranças do campo sanitário, do campo político e do campo social, tenha tido uma quase que formal repercussão na mídia em geral, enquanto que dois dias depois o episódio da médica cubana que se demitiu do programa “Mais Médicos”, para tentar ‘asilo’ no país, tenha sido intensamente divulgado e explorado pelos mais diversos canais midiáticos… e com um distanciamento enorme dos reais significados e interesses para a saúde da população.

Mesmo compreendendo que, como qualquer outra área, ou personalidade, a saúde tem seus momentos de ‘estrelato’ muito mais evidenciados nos episódios escandalosos, do que no enfrentamento e superação dos diferentes desafios sanitários, é uma pena que não se aproveite um momento tão propício (como a presente troca de comando no Ministério da Saúde) para evidenciar avanços e novas prioridades, e compromissos, na Política de Saúde e renovar expectativas e possibilidades de cooperação interinstitucional e intersetorial para a melhoria da atenção integral à saúde da população e consolidação efetiva do SUS.

A dinâmica do setor saúde é muito intensa e, no discurso, é até bastante reconhecida; muitas vezes bastante elogiada e respeitada pelos mais diversos sujeitos sociais e institucionais – cada um no seu campo de interesses – pois é sabido, por demais, que nenhum país ou região se desenvolve se não contar com um efetivo e eficiente Sistema de Saúde – entretanto, na prática, a importância do setor sanitário e do Sistema de Saúde ainda é de reconhecimento contra hegemônico, tanto é que estão aí enormes obstáculos a um financiamento adequado, bem como condições de trabalho e remuneração insuficientes, gigantescas dificuldades nos ‘instrumentos’ da administração pública para uma gestão qualificada de ações e serviços públicos de saúde e um muito grande (e decidido) esforço cotidiano para formação/qualificação da força de trabalho do setor, de acordo com as características dos serviços de saúde e as necessidades de saúde da população.

Em um ano eminentemente eleitoral, é preciso que se coloque a saúde integral, e multideterminada socialmente, como prioridade prioridade absoluta nos debates e nas agendas, tanto dos candidatos à presidência da República e aos governos estaduais, quanto das candidaturas para os parlamentos federais e estaduais, ressaltando o papel importante de interlocução de um novo Ministro da Saúde (entenda-se, por extensão, sua equipe), identificado e comprometido com a melhor condição e maior qualificação da atenção e gestão de saúde, no âmbito municipal, campo com uma complexidade e as diversas dificuldades tão bem conhecidas por ele.

[1]Médico, Mestre em Saúde Coletiva, Doutor em Ciências, Professor da UFT-Universidade Federal do Tocantins – é um dos articuladores da REDE DS e Editor do BLOG DIREITO SANITÁRIO: Saúde e Cidadania.