Neilton Araujo de Oliveira[1]

Não resta dúvida quanto à importância e urgência de se efetivar a integração ensino-aprendizagem em saúde, em articulação/integração com os serviços de saúde e a participação de organizações da comunidade que, por outro lado, representa uma alternativa/resposta potente, tanto frente ao desafio da busca de mudanças efetivas na formação/graduação em saúde, quanto na implementação de melhoria da qualidade da atenção integral à saúde das pessoas (Oliveira, 2007).

É necessário compreender que, se o processo de mudança é permanente e determinado social, econômica e politicamente, também são permanentes as resistências a mudanças (Rodrigues, 2002). Então, sabendo que a tendência de mudança caminha na direção da resultante dessas posições, é essencial intensificar as articulações, intra e extra escolas e cursos de saúde, no sentido da integração ensino, serviços de saúde e comunidade, o que além de refletir positivamente na formação do futuro profissional de saúde, também propiciará melhor preparo e engajamento docente na consolidação do paradigma da integralidade da saúde. Então, é necessário atuar fortemente na atual e próximas conjunturas, pois elas estarão, para um ou para outro lado, exercendo influências importantes na conformação da educação e preparação de pessoal na área da saúde.

Existe atualmente um conjunto de experiências que procuram integrar ensino e sistemas e serviços de saúde, contudo são ainda pontuais e carecem de maior sintonia com as necessidades de saúde da população… do que decorre a urgente necessidade de aproximar e articular os dirigentes dos cursos e escolas da área da saúde e os respectivos gestores municipais e estaduais de saúde, com apoio das instituições federais dessas áreas, para promover uma objetiva discussão e efetiva integração entre ambos e com as comunidades envolvidas, até mesmo nas áreas mais remotas e/ou de mais vulnerabilidade.

Sendo a comunidade uma organização “viva” e dinâmica, ativa e não passiva, nem indiferente nem ignorante, ela amolda e se amolda. É comum relacionar-se com a comunidade, e até usá-la, cada um na forma que lhe convém, retirando assim dessa comunidade o seu sentido de sujeito, de autor. Para a mudança pretendida, temos que ser e nos sentirmos engajados, comprometidos e nos reconhecermos como parte integrante dela.

Com o crescimento vertiginoso do conhecimento e do avanço da ciência, verificado atualmente nos mais diferentes campos, torna-se imperioso ao profissional de saúde (e, mais ainda, ao docente dos cursos de saúde, em particular do curso de medicina) deter um domínio sobre um contingente muito maior de informações, de tecnologias e de habilidades. Sua competência implica em uma formação que agregue ainda atitudes e treinamentos e, mais do que tudo, capacidade de pesquisar, aprender a aprender (CORE, 2002) e a se relacionar com os demais atores, institucionais e sociais. Muito particularmente, repensar seu papel e atuação na sociedade, incluindo aí os setores populares e comunitários.

A vivência de alunos e docentes na realidade local é fundamental para a mudança que se pretende na formação em saúde condizente com as necessidades do SUS. E, também, é preciso adotar currículos universais contemplando questões locais relevantes, ressaltando que “bons profissionais de saúde” são aqueles que são competentes globalmente e relevantes localmente. Ademais, se estamos enxergando, respeitando e valorizando as necessidades da comunidade, e seu papel protagonista, no processo de educação/formação em saúde, precisamos responder adequadamente quando esta comunidade nos diz que não quer ser ‘assistida’ pelo médico, somente, mas sim por uma equipe multi/interdisciplinar, competente e atenciosa, comprometida com a realidade local.

Por sua vez, não há como não concordar com a evidência de que as necessidades dos serviços de saúde em pequenas localidades, em áreas rurais ou remotas, são necessidades próprias e diferentes das necessidades dos serviços de saúde das grandes cidades… é preciso estarmos atentos a isso e de maneira comprometida cuidar, também, da sustentabilidade das respostas que daremos, o que só ocorrerá com a participação dessa comunidade.

Referências:

OLIVEIRA, NA. ENSINO MÉDICO NO BRASIL: desafios e prioridades, no contexto do SUS – um estudo a partir de seis estados brasileiros. Rio de Janeiro, 2007. [Tese de Doutorado]. Acesso em 13/04/2014 e disponível em: http://www.abem-educmed.org.br/pdf_tese/tese_neilton.pdf.

RODRIGUES, MLV. Inovações no Ensino Médico e Outras Mudanças: Aspectos Históricos e na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (Editorial 2). Medicina, Ribeirão Preto 2002 jul./set.; (35):231-235.
CORE. Committee, Institute for International Medical Education. Global minimum essential requirements in medical education. Med Teach. 2002 Mar;24(2):130-5.

[1] Médico, Especialista em Saúde Pública e em Políticas e Estratégias Nacionais, Mestre em Saúde Coletiva, Doutor em Ciências, Professor da UFT-Universidade Federal do Tocantins – é um dos articuladores da REDE DS e Editor do BLOG DIREITO SANITÁRIO: Saúde e Cidadania.