Gilson Carvalho[1]

Há duas décadas que sofremos com problemas de “indigestão” nos serviços de saúde. Públicos e privados.

Os problemas são enormes, mas só os venceremos se começarmos. O primeiro passo, dizem entendidos, precisa ser dado para sairmos da inércia do “não tem jeito”!

A falta de dinheiro para a saúde pública é crônica e fica irritante diante do cinismo dos governantes federais (maior obrigação de financiar a saúde, pois os únicos que arrecadam para isto) que, governo, pós-governo, independente de partidos e alianças, têm a mesma postura de achar que financiam muito bem a saúde e nada podem mais fazer.

Usam até o argumento de que se colocarem mais dinheiro para a saúde desequilibrará as demais áreas públicas, máxime a social. São capazes de dizer falácias, fruto da desinformação, como a dita recentemente por Ministro para justificar o gasto com a Copa: Educação e Saúde triplicaram recursos nos últimos anos! Deslavada inverdade.

PLANEJAMENTO

Na saúde, historicamente, planejamos pela demanda. A demanda nos move no dia a dia. Pressiona-nos no hoje, no amanhã e em todos os dias do ano. Os planejamentos da saúde acabam sendo uma ficção ou um exercício cansativo, mais irritante que trabalhoso. Pior, quando queremos ter a participação da comunidade nos embaraçamos, pois não sabemos o que transmitir a ela numa segunda, terceira e demais vezes sem solução e com quase nada de nosso planejamento executado. As construções se arrastam no planejamento, na decisão de fazer, na captação de recursos, na liberação de recursos, no processo licitatório, nos prazos de construção geralmente atrasados e depois no sufoco para equipar e, pior ainda, para alocar servidores. E, não são poucos os serviços construídos que não tem recursos de custeio para funcionar. Temos que simplificar nosso planejamento respondendo de forma direta às três perguntas chaves de qualquer planejamento: onde queremos chegar, onde estamos e como vamos de uma posição a outra.

PADRONIZAÇÃO

Temos que investir recursos técnicos para coordenar uma blitz para trabalhar com normas e rotinas. Devemos começar com a descrição do processo de trabalho de cada um dos trabalhadores de saúde. Nada temos em geral a não ser a tradição oral que leva a perda de memória e grande de tempo no aprendizado em serviço daquilo que o dispensaria. Outra questão é ter protocolos de condutas e rotinas pré-estabelecidas. Não estáticas, mas mutáveis com advento de novos conhecimentos, práticas e demandas a partir da realidade do território. Isto vale desde os cuidados de higienização de todos os ambientes de uma unidade de saúde, até os procedimentos técnicos de maior complexidade.

INFORMATIZAÇÃO

Discurso monocórdico que em décadas não anda. Com o progresso da TI (Tecnologia da Informação) continuamos na pré-história. Não conseguimos fazer a revolução da informação na área da saúde. O pouco que, em alguns lugares, aplicamos, acaba sendo mais burocrático do que o sistema manual. Falo da informação rotineira em todos os setores da administração: finanças, materiais, força de trabalho, produção de serviços, pesquisa de dados epidemiológicos e outros. Esbarramos em dois obstáculos quase inamovíveis: equipamentos/rede inadequados e limitação das informações, sob forma ou conteúdo.

INVESTIMENTO EM GENTE

Historicamente temos investido pouco na força de trabalho da saúde. Com tantas inovações de conhecimento e de processo, não temos dado prioridade a esta área. Os profissionais devem se sentir seguros para executar suas tarefas. Descobrir as várias formas de trabalhar com educação permanentemente e não apenas episodial. Educação em e para a saúde tem que fazer parte do suporte de sempre aos trabalhadores de saúde. Sair da mesmice de pensar que o dinheiro gasto com a educação permanente poderia ser melhor gasto com assistência direta. Se melhorarmos a segurança e atuação técnica dos profissionais estaremos também contribuindo na qualidade da atenção à saúde. Os salários e as condições de trabalho são indispensáveis, mas o apoio técnico e humano aos trabalhadores de saúde são imprescindíveis.

GESTÃO FINANCEIRA

Aqui um dos grandes embaraços. A falta de dinheiro é evidente e facilmente comprovável. Mas, isto não dispensa seu uso correto e sua gestão melhor ainda. Não temos sido exemplares nesta tarefa. Todos os mecanismos gerenciais com informações precisas e adequadas à gestão financeira deixam a desejar, são complexos e ineficientes. Não conseguimos ainda, nem ter um sistema de controle que seja inteligível por grande parte dos gestores, dos técnicos e, o mais grave, da população.

GESTÃO PARTICIPATIVA

Investir na participação de todos os envolvidos na saúde. Gestores e equipe técnica. Trabalhadores de saúde. Prestadores de serviços de saúde. Cidadãos usuários dos serviços de saúde. Temos ido mal nesta tarefa. Não colocamos ao alcance das pessoas os planos de saúde, os relatórios de gestão. Como querer que os conselhos de saúde sejam melhores e mais efetivos? Existe aí uma mão dupla. Do lado dos gestores: colocar ao alcance de entendimento os instrumentos de gestão (plano, relatório, indicadores etc). Ser transparente em todas as ações e no uso do dinheiro do coletivo. Limitam a capacidade do município em propor iniciativas com a participação da comunidade. E assim vamos impedindo de varias formas a verdadeira gestão participativa.

[1]Médico, Doutor em Saúde Pública e Professor Universitário