Lenir Santos[1]

Neste mês de julho a saúde ficou mais pobre. Perdeu Gilson Carvalho, um lutador tenaz pela saúde pública que a viveu de modo intenso e de forma direta.

O dia 3 de julho de 2014 será esquecido, mas a sua figura impar viverá nos corações daqueles que com ele conviveram e debateram o bom debate sanitário. Uma de suas mais marcantes características era dizer o que pensava; dizer a qualquer um – autoridade pública ou não – de forma pública, sem se preocupar em agradar, sendo muitas vezes contundente e irreverente, mas a isso aliava a afabilidade e o ouvinte atento, capaz de revisões públicas quando convencido ante a sua autoexigência. Ele era o que disse Guevara: hay que endurecer se pero sin perder la ternura jamás…

Ele tinha o hábito de enviar-me certos textos para opinar; algumas vezes ponderei sobre a sua contundência. Ele então me dizia: – Lenir há contundência maior em deixar as pessoas desassistidas anos a fio em razão de uma política que não coloca a saúde como prioridade?

Assim dizia ser necessário usar da mesma moeda utilizada por aqueles que não priorizavam a saúde como política pública. Se de um lado a reiterada contundência do descumprimento da lei, de outro a reiterada e expressa indignação.

Foi talvez um dos mais estudiosos e entendidos em financiamento público da saúde, tema de seu próprio doutorado na USP. Aquilo que nos parecia ser muitas vezes ele demonstrava que não era. Abria o orçamento público antes mesmo de aprovado pelo Congresso Nacional e fornecia a todos os dados reais; as entrelinhas; as artimanhas orçamentárias da área econômica.

Um de seus últimos telefonemas para mim foi saber se eu também estava sendo cooptada para aceitar as alterações que a emenda popular de modificação da Lei Complementar 141 estava sofrendo. Disse-me que pessoas que defendiam o projeto da saúde mais 10 estavam tentadas a concordar com as modificações propostas em razão do pouco mais dinheiro para a saúde no segundo semestre.

Isso o deixava profundamente aborrecido e como no último ano ele havia perdido a alegria, levada pela morte da Maria Emília, seu modo de agir que já era contundente, passou a ser irado. A ira santa, diga-se, momentos de todos os pregadores de todas as doutrinas, sem exceção. O cansaço de pregar no deserto.

Ele estava muito sofrido ao ver alguns amigos defendendo as condenações de outrora. Seu sofrimento já passava o físico e entrava metafísico para o qual não há remédios.

Suas principais características, além da prosaica de nunca ter tido um celular, ele era de uma coerência cortante. Não arredava o pé da necessidade de o país cumprir suas leis ou mudá-las, se necessário. Repetia esse refrão à exaustão. Sua coerência e coragem incomodava muitas vezes.

Somos uma sociedade que gosta de dar um jeito de descumprir a lei; de deixar para depois o que deve ser feito agora; de fechar os olhos para muitas práticas em nome de acertos políticos ou de pura acomodação; e isso vai gerando uma casca social sem conteúdo. Gestão de aparências, de números que não se sustentam quando necessário comparar ao que ficou faltando; do proveito pessoal em contraponto ao comunitário, atos que tem causando mal estar social e gerando uma sociedade segmentada, egoísta, narcísica, sem senso comunitário.

Sua militância pública, sua coragem para a polêmica necessária o vinha isolando e ele sabia disso. Isolando-o não da sociedade, mas dos cooptados para projetos de poder-fim e não poder-meio para projeto de nação; dos conciliadores próximos à cooptação e daqueles que maximizam imposições de governabilidade.

Por disso posso dizer que ele fazia o papel do alter ego social para nos lembrar dos valores civilizatórios; os valores sociais que exigem de nós maior sentido de alteridade. Ele era o pregador da ética da alteridade numa sociedade que se acostuma ao narcisismo, sempre e mais.

Quem está ligado a uma causa e faz dela seu campo de luta, essa causa não pode perder o seu objeto que é o coletivo. O dever de servir a sociedade garante à autoridade poderes como instrumento e não como fim. Contudo, o poder tem sido usado como meta e o dever de servir que fique para depois.

Gilson Carvalho deu um exemplo de cidadania. Nunca se esqueceu de que o dever de servir era a meta. A maneira de homenageá-lo é ter as suas pregações sanitárias agindo como alter ego em nossa vida coletiva.

[1]É doutora em saúde pública pela UNICAMP, especialista em direito sanitário pela USP e coordenadora do curso de especialização em direito sanitário IDISA-Hospital Sírio Libanês. Advogada.