Lenir Santos[1]

Adib Jatene logo cedo conheceu a dor: perdeu o pai aos dois anos de idade. Sua mãe, que marcará indelevelmente sua vida, criou quatro filhos pequenos, inicialmente em Xapuri, no Acre e depois em Uberlândia para onde se mudou alguns anos depois e conforme frase do próprio Jatene, “então minha mãe sozinha, abriu um pequeno comércio, começou a pelejar e assim conseguiu criar seus filhos”. A lembrança marcante que ele guardou da mãe, e conforme afirmava que “mais importante que a presença é a imagem” era de uma mulher determinada, simples, que estava sempre trabalhando. E esse gosto pelo trabalho e pelo seu lema “se vale a pena fazer alguma coisa que ela seja benfeita” o levou a ser um homem de profundas análises do cotidiano, observação do ser humano e um perfeccionista em tudo o que fazia e no que mais gostava: estar num centro cirúrgico; sempre afirmava que nada resiste ao trabalho.

Tive o privilégio de conviver algumas vezes com ele, em especial quando o convidei para gravarmos a sua história de vida que ele sempre relutou; acabei convidando-o para um livro que pudesse contar ao menos um pouco de sua historia. O primeiro, um texto, num livro que organizei Saúde Pública, meu amor[2], onde ele publicou um artigo sobre a sua experiência com a saúde pública, intitulado “De uma viagem de sessenta dias para a viagem da vida”, numa referência a viagem de sua família de Xapuri para Santos. No segundo livro, um diálogo entre ele e o então Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, 40 anos de medicina, o que mudou?[3] mediado por mim e Odorico Monteiro.

O conhecia desde a Secretaria da Saúde em SP, na época do convenio SUDS (1987). Ainda que algumas vezes com pontos de vistas divergentes, o que contava eram as convergências e tivemos muitas agendas sanitárias.

Seu dom pela matemática, que o fez pensar em ser engenheiro, o que o levou a ser o engenheiro do coração, com invenções e inovações de relevância para a cirurgia cardíaca. Infatigável lutador pelo financiamento da saúde, disse numa reunião de transição do primeiro governo Dilma, onde ela estava presente, que ele só acreditaria que a saúde pública seria de fato uma prioridade para o governo, se o seu financiamento fosse resolvido. Ele entendia que dependíamos de uma reforma tributária. “Eu discuto sempre que a desigualdade só existe quando os que geram renda se apropriam dela. Quer dizer, quem olha a av. Berrini ou para a Paulista diz: ‘Poxa, esse é um país opulento’. Mas, de repente, quilômetros adiante, há uma população que tem dificuldades para um atendimento mínimo. Esse é o nosso desafio. O desafio não é a saúde, o desafio é a área econômica do governo, que tem que montar um esquema financeiro para atender as necessidades da população”.

O que sempre me chamava atenção era a sua qualidade de homem simples, que nunca se deixou levar pelo canto da má política, da ostentação, do deslumbramento. Era um homem de princípios e não se prendia a ideologias e sim as causas. Sentia-se livre para dizer o que pensava e lutar por suas ideias sem medo dos patrulhamentos tão comuns na nossa sociedade, diga-se, pouco inclusiva e respeitosa com a diversidade do pensamento político.

Certa vez, na Unicamp, quando era procuradora, me disseram que o Dr. Adib Jatene, Ministro da Saúde queria falar comigo. Ao pegar o telefone era ele quem estava na linha e não sua secretaria. Tinha o hábito de ligar diretamente para as pessoas, sem intermediação; em suas audiências e deslocamentos como Ministro, não gostava de se ver cercado de assessores, jornalistas, fotógrafos, como é habitual. Ele mesmo dirigia o seu carro, dispensando motorista particular até pouco tempo atrás.

Sua atuação quando Ministro para a implantação do programa saúde da família e agente comunitário foi relevante e hoje é indispensável na atenção primária em saúde. Também vale lembrar que ele idealizou e foi o primeiro presidente do Conass – Conselho Nacional de Secretários de Saúde, hoje altamente relevante para o SUS.

Seu senso humanitário o fazia olhar a pessoa (e não o seu cargo ou qualquer atributo externo numa sociedade que se refere às pessoas pelo cargo que ocupa). Achava que a medicina não pode valorizar mais a técnica do que a pessoa. Dizia que o médico deve olhar o paciente com a humildade de suas limitações e não com o poder de seu conhecimento.

Perdemos um homem que mesmo sabendo de seu prestigio profissional e político nunca o usou em beneficio próprio e sempre se manteve simples e discreto em suas atuações sociais e profissionais. Vai deixar saudades e uma historia para contar.

1- É doutora em saúde pública pela UNICAMP, especialista em direito sanitário pela USP e coordenadora do curso de especialização em direito sanitário IDISA-Hospital Sírio Libanês. Advogada.

2- Saberes Editora, 2012.

3- Idem, 2012.